3.30.2014

Reflexo

Paro em frente ao espelho.
Começo a percorrer os contornos de um corpo,
O meu.
É-me indiferente.
Nos meus devaneios procuro figura de destaque,
Algo de louvor mas,
De mundano não passo.
Ouço vozes a contestar este pensamento,
Tudo aponta para uma visão redutora do eu.
Simplesmente ignoro.
Ignoro para que a frustração não se manifeste
Por não ser capaz de me ver por outros olhos.

Outrora dor, hoje indiferença
Marcam os olhos que vislumbram o reflexo do rapaz perdido.
O rapaz que nunca encontrará saída.





3.25.2014

Dormência

Caminho sem rumo,
Comecei ainda o dia ainda não tinha emergido,
Agora, a escuridão já envolve as formas.
Os músculos ameaçam ceder com tremores indolores.
Indolor.
Abala-me este anestésico estado em que me encontro,
Falta-me dor.
Rapidamente percebo que estou errado,
Esta não me desocupou,
Preenche-me.
Sou pedaço de dor,
Há tanto tempo que me é indiferente.
Os tremores aumentam,
Não irei resistir mais tempo.
Recosto-me à primeira árvore que encontro,
Deixo que o cansaço se apodere de mim.

Hoje descansarei, o sonho não me irá percorrer.






3.23.2014

Melancolia

Que triste ser-se triste,
Embrenhado na fina pelicula do desolamento.
Vagueio apático por ruas preenchidas
E nunca me senti tão só,
Como se tivesse envolto de uma redoma opaca.
Já foi o tempo em que a melancolia não reinava,
Tempo esse cheio de luz e vivacidade.
Hoje é rainha e soberana
E eu seu escravo.
Tudo o que faço é fruto da sua vontade,
Desde o amanhecer até ao fim do dia.
Às vezes, de tão maníaca e egocêntrica que é, torna as noites em claro.
Tamanha é a minha impotência que nada faço contra ela,
Apenas espero que o sol brilhe uma vez mais.

Talvez aí alguém me liberte do seu domínio.




3.21.2014

Pesadelo II

Acordo sobre uma mesa.
Tento levantar-me mas em vão,
Nada sinto do pescoço para baixo.
Olho em volta à procura de algo que reconheça,
Estou em casa.
Tento gritar mas algo me prende os lábios. 
O meu coração dispara quando ouve passos firmes.
Alguém se aproxima com o rosto tapado,
Nada diz, apenas me fita.
Traz consigo uma panóplia de ferramentas
Que cuidadosamente pousa junto ao meu corpo despido.
Não sei o que fará mas brevemente descobrirei.
Examina-me uma última vez e começa a sua lida.
O barulho frio da lâmina a desfazer a minha carne ecoa,
E o vermelho sangue vivo corre em liberdade.
Vejo o meu pé decepado e ele prossegue.
Joelho, anca, falanges,
Cortar-me-á todas as articulações que sustem o meu esqueleto.
Deixo cair uma lágrima impotente,
É tudo o que sou capaz de fazer.
A poça sanguínea é cada vez maior e
Cada vez mais me sinto mais débil.
Ele já não me olha, a sua obra consome-o.
Deixo este mundo banhado de vermelho viscoso.


Desperto num tormento,
Salto da cama acendendo a luz rapidamente
Deixo-me cair de joelhos sem fôlego,
Preciso de ar.
“Calma, calma”,
Fico encolhido sobre mim mesmo.
Hoje o dia começou cedo.




3.20.2014

Célere

Neste prado corro de braços abertos.
O ar molda-me a figura
“Mais depressa, mais depressa!”
Quero voar.
Talvez isso aconteça e transcenda os céus.
Começa a chover,
Gordas e certeiras gotas de água tépida.
Imerjo neste mando verde a medida que me encharca
Entrego-me a esta breve simplicidade.
Sinto-me eufórico,
Parte de algo.
A necessidade de produzir chuva das janelas humana persegue-me
Todavia sou incapaz de a produzir.
O meu passado secou-me as lágrimas.
Estão gastas e perdidas em choros noturnos incessantes
Onde a reação era mais forte que a razão.


Quiçá agora me inunde de mágoas.


País das maravilhas

Que magnífico!
Este hipotético lugar pacífico, intocável
Onde não existe preocupação nem preconceito.
Apenas pureza,
Tudo fácil, tudo belo.
Possível? Nunca.
Que extremista a impossibilidade da sua não existência,
Contudo a mais genuína das verdades.
Nunca enquanto a raça humana permanecer.
Porquê?
Por uma simples razão.
O ser humano é conflito,
É-lo com o próprio, com os outros e com o mundo.
Este move marés, montanhas,
Destrói, cria, começa, finda.
Um círculo.
É impensável viver sem conflito,
Sem ele ninguém expande o ser pensante.
Parece incoerente habitar um lugar onde é complicado subsistir,
Pois o sonho é o facilitismo, a felicidade extrema e constante,
O luxo, o conforto…
Eu não abdicarei do meu conflito,
Do bombardeamento incessante de devaneios.

Cessar é morrer.


 

3.19.2014

Sentidos

Encontro-me coberto de um eterno manto negro,
Perdi a visão.
Guio as minhas passadas com palmos ponderados,
O negrume não me é estranho.
Do nada, uma voz começa a guiar-me ao seu encontro
É-me familiar.
A doce e suave voz que me arrepia,
O meu abrigo.
O vulto está próximo, consigo sentir o perfume denso a inebriar-me
E o ar quente que expira.
Aproximo-me o mais que posso sem tropeçar.
Sinto o toque,
Lamento a inutilidade dos meus olhos,
Deixo que as minhas mãos vejam por eles.
Começo a tocar o semblante na fronte delicadamente
E rapidamente desenho linhas mentais que contornam as suas formas.

Sei quem é,
Estou seguro.


3.18.2014

Pesadelo I

A taquicardia apoderou-se de mim.
Hiperventilo no momento em que me apercebo que cordas me revestem neste mastro.
Corpos de rostos vazios cercam o perímetro como se tivesse saída.
Começam a rir em soluços ininterruptos, 
Ao mesmo tempo que as chamas principiam.
Sinto a carne a borbulhar e a dilacerar.
Estou em silêncio.
Porquê?
Porque não me soltam?
Qual a razão do riso?
A dor preenche-me e ultrapassou o suportável.
Mordo o interior da boca freneticamente mas,
Não consigo emitir um som que seja.
Começo a ser cinza a partir da cintura
E os vultos apontam.
“ – Reparem o quão espontaneamente se apaga.”
Lavam-me o rosto os olhos que se vão dissolvendo.
É tarde de mais,
Limito-me a deixar que o fogo me consuma num pavio firme...

Desperto com tremores intermitentes e encharcado de suor,
Amanhã durmo.



3.17.2014

Arte

Obras de arte,
Resultado de pinceladas emaranhadas, criadoras de um quadro inacabado,
A vida ocupar-se-á de o findar.
Sobrevalorizados ou desconhecidos,
Construímo-nos numa paleta de probabilidades infinitas,
Que nos leva ou à genialidade ou ao mimetismo.

Surreais, clássicos, cúbicos, abstratos, impressionistas
As pinceladas determinarão a obra-prima que se formará.
Como arte corremos o risco que ninguém nos compreenda,
Ou que a compreensão apenas surja post mortem.
Esperamos que pelo meio desta construção
Ninguém rasgue a tela
E nos destrua inacabados.
Habitamos neste museu movediço de experiências inevitáveis
Alvo de criticismo, julgamento e admiração talvez,
Esperando o olho que nos enaltece
E nos engrandeça perante os milhões de quadros por findar.

Hoje vestirei a moldura que me tornará comedido enquanto a grandiosidade não chegar.





3.16.2014

Máscaras

Faces envoltas num manto falacioso,
Usadas por todos.
Que esconde tamanho mistério?
Tamanha ilusão?
Cicatrizes de uma vida,
Mentiras impingidas,
Aparente felicidade.
Criamos o misticismo para que tal nos cubra.
Escudos, muralhas, armas de fogo
Tudo para que não nos vejam humanos,
Quebradiços, impotentes humanos.
Pois nada mais é a essência do homem senão fragilidade pura,
Numa montanha russa de uma paragem.



3.15.2014

Renascer

Escondido no escuro jaz a criança.
Escuta cada batida do seu coração
Com a pressão latente nas têmporas numa melodia exasperada e frívola,
Jaz por jazer, existe por existir,
Numa valsa sem sentido.
Criança na terra de sonhos,
Fruto do acaso, espera que por alma divina encontre razão da sua presença.
Espera pelo amanhã
Na esperança,
Que ainda não perdeu,

De encontrar sentido e do sentido renasça homem.






3.12.2014

Motim memorial

A dormência findou
Balas ressaltam por toda a parte
Ateando o rastilho outrora longo.
Grito até que a voz me falhe,
Até que tudo me doa.
A carótida pulsa numa batida frenética,
Quero liberdade!
Liberdade das correntes que me prendem ao passado.
Grito!
Quero o meu corpo em sintonia com o motim memorial,
O crescente desejo de demolir tudo a minha volta não tarda a manifestar-se.
Quero pó, obra-prima,
Simplicidade!
Respiro fundo e caio por terra,
Sei que o renascer está próximo.

Voltarei a prosperar de novo. 



3.11.2014

Equilíbrio

Encontro-me no limiar da insanidade
Saciado por pequenos delírios de um sonho inacabado.
A projeção é mais intensa que a realidade.
Neste filme alucinatório de uma linha de tempo
Os personagens vão ganhando forma e carácter etéreo
Conforme construções inadequadas de perfeição,
De imperfeição não passa.
Esta linha de pré demência é mais ténue que o quente bafejo humano,
Leva a crer que há algo para além disto,
Tudo para descobrir que não passamos de probabilidades cósmicas.

Talvez a alucinação de ser algo ou alguém desapareça a tempo.


3.07.2014

Outrora

Desespero por isolamento
De quatro paredes caiadas de branco
E silêncio profundo.
Quero calma, serenidade
Quero as doces palavras do nada a inundar-me.
Não quero alma,
Quero a dor do vazio a preencher-me o ser
Como se para isso fingisse jazer a sete palmos de terra.
Tudo é mundano, tudo é vil.
A existência é fardo demasiado pesado nas minhas costas.
Carrego como Atlas a terra
Braços e pernas ameaçam ceder
E deixar cair a terra que sou.
Sei que nada sei e nada saberei
Apenas peço
Dêem-me silêncio

Dêem-me calma.

3.03.2014

Pensamento

Alguns definem a vida como sendo eterna e eu respondo: duas certezas, e duas apenas: início e fim. Das cinzas renasce a fénix, todos nós caímos no esquecimento inevitavelmente.
O que somos nós para além de um corpo?
Somos alma para quem a tem, somos marco para quem somos suporte, talvez.
Continuamos a cair no esquecimento, tal como a força gravítica. Podemos contraria-la sim, mas só depende de nós o prolongar a nossa existência na memória dos efémeros. Não vale a pena seguir a manada social, só cega e ensurdece e caso o façamos, o que somos nós para além de cópias?
Divago até que me doa este corpo que sustenta o pensamento agitado, comprimido nesta caixa de ossos.
Sei que cairei no esquecimento, de nada grandioso tenho nem digno de memória, sou mundano, contudo não me contento a ser somente corpo. Por essa razão não me apoquenta desvanecer da história da humanidade tão célere quanto surgi, Aceito essa verdade como aceito a segunda certeza que tenho.