4.26.2014

Pavio

Que espanto o espanto causa,
Ao espantar os espantados.
Decerto este não quer espantar tanto,
Apenas viver um dia atrás de outro.
Começou a usar um vulto
Para que pudesse ter serenidade,
E esta chegou, tarde.
O tempo correu na azáfama de sempre.
Os espantados agora não tanto
Esqueceram-se do espanto, agora vulto
Perguntou-se o porquê
De passar a desconhecido por não estar nos olhos dos que vêm.

Eu sei, meu caro.
O esquecimento é inevitável.


4.23.2014

Viagem

Um dia serei pássaro
Correrei mundo,
Renascerei num novo lugar.
Longe,
Onde todas as ruas são desconhecidas
E não há memória.
Sei que a probabilidade de ser feliz é maior,
Aí o passado não me voltará a assombrar,
Perderá o vigor,

Até que desvaneça. 



4.21.2014

Ténue

As luzes desta cidade
Cegam o que resta do meu raciocínio.
O meu objetivo é perder-me
Nesta espiral luminosa de encruzilhadas.
Por curvas talvez encontrarei o caminho certo,
O caminho para a lucidez.
“De loucos todos temos um pouco”
E pouco falta para desse lado ficar.
Não temo o cair na insanidade,

Tenho medo de lá permanecer.





Carnificina

Decepei o meu próprio braço direito,
Nunca o recuperarei.
Caminhos solitários aproximam-se na alvorada,
Só me resta caminhar.
Um dia talvez tolere a minha presença
Mas nada valerá a pena para cicatrizar a carne dilacerada.
Tornou-se incompatível.
Não espero que o passado volte,
Nem que o presente se repita,
Espero apenas um futuro desconhecido.
Deixarei que a dor permaneça,
Servirá de lembrete à pessoa em que me tornei

Erguerei as muralhas que lentamente deixei que desvanecessem
Enquanto a minha alma se embrenhava numa valsa sem sentido.
Agora sei o que me aguarda o futuro,

O destino vazio.





4.16.2014

Prisão craniana

Percorro círculos infindáveis nesta sala,
Envolto numa cortina de fumo que ameaça não esmorecer.
Os devaneios estão numa frenética correria contraditória,
Raros são os dias em que o conflito entre eles não se manifesta.
Ferozmente, combatem nesta prisão óssea que lhes dá sustento,
E que ameaça ceder.
Os gritos de afirmação não cessam, todos querem triunfar.
Por vezes o barulho é tão alto e caótico que anseio ser oco.
O desejo por clareza consome-me,
Caso se concretize eu não existirei mais.

Encontro-me a pedir que esta caixa craniana ceda
E dê liberdade aos soldados que me definem o ser.
Irão encontrar uma casa,
E eu terei paz.




4.15.2014

Fugaz

É a fadiga constante
Que me consome a alma.
Dias longos, sem pausas
Noites turbulentas.
Sobrecarga de pensamentos
E o desejo de calma.

Um dia serei vazio,
E o fardo esvaziará, suave e fugazmente.
Será tarde de mais,

Não voltarei a ser ser.



4.09.2014

Início/Fim

Incrível como os dias passam
Sem ter a perceção que há-de chegar o dia,
O dia em que não terei mais para descontar.
O meu percurso é um contrarrelógio,
Sozinho percorro para uma meta em que não tenho pressa de chegar,
E no entanto a meta não me assusta.
Menos segundos, minutos, horas, dias, meses, anos
Numa batalha proporcionalmente inversa ao desenvolvimento,
Àquilo a que anseio chegar.
De sonhos se faz o homem,
Sonhos que o homem fez no embarcar desta viagem.

O importante é inebriar o meu ser com doces delírios,
Quando parti sabia que não podia voltar.



4.06.2014

O que é isso de amor?

Deparo-me a refletir no famoso paradoxo mais comummente conhecido como amor, o que é isso?
Esta questão atormenta-me simplesmente por não saber definir, não existe uma descrição única e universal que traduza estabilidade do conceito.
Frequentemente sou bombardeado com comportamentos, reações e emoções presenteadas por casais engatados que querem afirmar ao mundo a seu “estado civil” e isto faz-me analisar cada uma das “dádivas” a fim de perceber a noção. Porém, tudo aparenta ser ambíguo, o olhar tolo embasbacado e vivaz de pares engatados, a troca de caricias, choros de frustração pela mágoa infligida, as declarações lamechas tão características desta coisa.
Alguns definem o amor como sendo um sentimento que se difere totalmente dos outros, este é o culminar máximo do estado de espírito, outros definem-no como o encontrar da pessoa dos seus sonhos e toda a carga emocional que acarreta. As definições e opiniões são infindáveis mas será aquilo a que chamamos ao assunto em questão repleto maioritariamente por aspetos positivos? Duvido, uma vez que tanta boa gente lamenta pelos seus corações terrivelmente melindrados ou partidos e os irreparáveis danos de suas almas.
Tudo remete para a complexidade do termo todavia algo me leva a concluir que ao que chamamos amor é nada mais nada menos que medo e obviamente as suas repercussões fisiológicas e psicológicas. É a única explicação lógica e viável pois trata-se de uma emoção primaria que se manifesta logo pós nascimento e logicamente que esta evolui ao longo do desenvolvimento humano começando por se manifestar no medo de cair, no recém nascido, medo de perda das figuras de vinculação e boneco significativo, na criança e assim sucessivamente, até que chegamos ao medo tão enunciado nesta publicação e este vai-se traduzir em diferentes vertentes como o medo da perda, da incompreensão por parte da pessoa adorada, medo de que o medo não seja reciproco.

Pois bem caros leitores o medo é normal, te-lo por se sentir tão bem com algo/alguém que só o pensamento de o/a perder doí, te-lo por não ter a segurança da pessoa par ao seu lado... só assim sabemos se realmente existe algo que valorizamos e que nos traz segurança e isso sim é amor.



4.02.2014

Reino

Iludidos por uma realidade construída
De perceções e interpretações dissimuladas,
Habitamos esta esfera.
O comando é o sonho.
Precocemente leva-nos 
Aos mais belos reinos fantasiosos e inexistentes.
Tudo o que vemos acrescenta um ponto
Ao cenário que não tem termo.
Este doce veneno é puro, ingénuo.
De simplicidade nasce o coração do homem,
De cicatrizes fina-se,
Pois o mundo altera, assim como a nossa visão.
Turvo, entorpecido, negro
Passará a ser o nosso planeta à medida que o peso se acumula sobre costas,
E o reino desaba em ruínas.

Desejo o veneno de novo,
É tempo de erguer um império.




4.01.2014

Insónias

As voltas são incessantes.
Observo o ciclo diário sem fim,
Vezes e vezes sem conta.
Aparento estar preso num pesadelo em que nunca acordarei.
A apatia desola-me,
Neste pranto de pensamentos contínuos,
Já são muitas as horas por dormir.
Mas para quê dormir?
O mundo expande-se cada vez mais,
O conhecimento por alcançar, culturas por explorar,
Língua para dominar, lugares para vaguear.
É irónico como o ser humano usa qualquer desculpa para justificar os seus atos,
Com razão tudo é tolerável.
Não passamos de tolos nesta anedota cósmica,
Chegamos a ser ridículos pois cremos que somos centro do universo,
De ínfimos não passamos.
Espero que a lucidez ilustre o nobre real povo,
A tempo de se colocarem na condição de plebeus a que pertencem.

Da humildade se rege o sábio.